Israel - Sonho que virou pesadelo

Versão em Inglês      

 

O sonho

Em 2000 esperávamos realizar um sonho antigo. Viajar a Israel. Planejamos esta viagem durante bastante tempo, deixamos de trocar o carro para realizar este sonho. Na verdade eu, queria conhecer o Egito, mas Mara queria conhecer Israel. Assim fomos procurar um pacote turístico que permitisse conhecer os dois paises. Conseguimos um pacote que previa quatro dias no Cairo e dez dias em Israel.

 

Cheios de alegria, no dia 25/04/2000, partimos em direção ao Cairo para nossa aventura. Ficamos hospedados no Cairo em um Excelente hotel e muito bem atendidos por uma empresa de turismo local. Foram quatro dias maravilhosos, com visitas aos principais pontos turísticos: Pirâmides, Museu do Cairo, Esfinge, jantar noturno no Rio Nilo (no dia do meu aniversário).

 

No Egito

No dia 30, muito cedo, acordamos para tomar o ônibus turístico. Aquele ônibus nos levaria até a fronteira do Egito com Israel. Lá empresas de turismo, contratam os ônibus e são escoltados pelo exército até a fronteira. Aquele comboio (ônibus e veículos militares) iniciou a viagem, atravessando uma grande extensão de deserto até a fronteira com Israel (no dia anterior havia ocorrido um ataque terrorista a um ônibus de turismo). Na fronteira, no lado Egípcio, uma pobreza total e a comunicação impraticável. As poucas palavras que pronunciam em inglês são incompreensíveis e o árabe, claro, não falamos.

 

A travessia

Ainda no lado egípcio, atravessamos por uma multidão de pedintes, querendo dólares. Tentavam carregar, à força, nossas bagagens para cobrar receber gorjetas. O ambiente é estressante. Aquelas pessoas da fronteira fazem de tudo para conseguir algum dinheiro. Apesar de toda dificuldade, trocamos moedas e aguardamos autorização para tomar um pequeno ônibus. Ele nos levou através da zona neutra até a alfândega de Israel. Neste ponto, a responsabilidade das empresas de turismo do Egito termina. Eles retornam ao Cairo, já que sua mercadoria foi entregue.

 

Sentindo isto, chegamos a policia de fronteira de Israel. Quando começaram as revistas dos turistas. Abriram todas as nossas malas. Perguntaram várias qual nossa procedência, qual nosso destino, qual o propósito da viagem. Pediram nosso endereço no Brasil, onde trabalhávamos. Perguntavam se carregávamos armas, se tínhamos granadas, bombas e muitas outras perguntas.

Satisfeitos com a revista, nos liberaram para verificação dos documentos. A funcionária repetiu todas as perguntas. Finalmente devolveu o meu passaporte, informando que eu estava liberado. Mandou a Mara aguardar. O motorista do ônibus para Tel-aviv, ameaçava partir sem nós. Ficamos quase uma hora aguardando o passaporte de Mara. Finalmente, após muita pressão, a funcionaria nos informou que Mara não entraria no país.

 

A Deportação

Sem nenhuma explicação, cancelaram o visto, informando que seríamos devolvidos para o Egito. Bem, o ônibus já havia partido para tel Aviv, sem nós. No lado do Egito, ninguém conhecido. O comboio já havia retornado ao Cairo. Nos puseram em outro ônibus (cheio de galinhas) e obrigaram o motorista a nos levar para o lado egípcio. Chegando lá, os soldados nos receberam com metralhadoras em punho, ordenando ao motorista retornasse para Israel. De repente, não éramos bem vindos em nenhum dos dois paises. Nos sentíamos verdadeiros criminosos.

Até que, com muita paciência, conseguimos explicar o problema dos passaportes. A situação era a seguinte: As passagens de volta ao Brasil, agendadas para partir de Tel Aviv mas, naquele momento, nossa única saída era retornar ao Cairo, por conta própria, se conseguíssemos sobreviver a aquelas pessoas ávidas por dinheiro de turistas.

 

Voltando ao Cairo

O local não tinha táxi, não tem linha de ônibus e não conseguíamos nos comunicar decentemente. Por sorte, um oficial egípcio nos conduziu até um ônibus de excursão, que estava partindo para o Cairo, conduzindo um grupo de turistas Turcos. O Oficial conversou com o motorista, que aborrecido, conversou conosco. Exigiu US$ 50,00 cada pessoa, por motorista (eram dois motoristas), para nos levar ao Cairo. Sem saída, aceitamos a proposta. Iniciamos a viagem ao Cairo, com intenção de chegar ao hotel onde estivemos hospedados.

Os casais turcos, de certa forma, gentis, nos olhavam com desconfiança. Provavelmente já sabiam da nossa estória. Nós, ainda preocupados com as barreiras do exército egípcio. Logo nossa falsa tranqüilidade foi quebrada. O guia da excursão (um egípcio), veio falar conosco exigindo pagamento:

Ameaçava: “Para viajar no meu ônibus, terão que pagar!”.

O valor que cobrou: US$ 200,00 para cada. Informamos que havíamos combinado preço com os motoristas. Os guias não quiseram saber e nossa situação ficou desesperadora. Os motoristas queriam nos extorquir US$ 200,00 e os guias turísticos US$ 400,00. Estávamos ficando sem dinheiro. E ainda teríamos que bancar hotel e alimentação até retornar ao Brasil.

Questionamos: “Por que, temos que pagar aos guias e aos motoristas?”.

O guia informou: “Motoristas não possuem autoridade para cobrar”

Disse ainda: “Quem representa a empresa, sou eu!“ e completou: “Eu darei a parte que cabe aos motoristas!”.

Exigiram o pagamento adiantado. Pagamos a quantia acreditando que o problema estava solucionado. O guia não repassou nada aos motoristas.

 

Os motoristas, desconfiados, começaram a nos pressionar em cada parada do ônibus.

Ameaçavam: “Dê-nos o nosso dinheiro, caso contrário...”.

Nossa preocupação estava nas bagagens. Estavam no compartimento do motorista e com isto ficamos reféns da situação. Nas paradas nos revezávamos para ir ao banheiro ou para comprar água. O outro ficava vigiando o compartimento de bagagens. Tínhamos medo que os motoristas, por vingança, tomassem nossas bagagens.

 

Chegando ao Cairo

Neste clima de insegurança chegamos às 23:00 no Cairo. O ônibus parou no hotel onde os turcos se hospedaram. Não sabíamos como chegar ao nosso hotel e nossas bagagens estavam presas. Precisávamos do guia para indicar como chegar ao hotel Pirâmide. O guia havia desaparecido no hotel, no processo de acomodação dos turistas. Enquanto e procurava o guia, a Mara tentava retirar a bagagem. Não foi fácil, mas, a Mara conseguiu pegar as malas com os Motoristas, sem pagamento, após muito trabalho.

Por sorte, o guia, residia no caminho do nosso hotel. Tomamos o mesmo táxi. Ele deu instruções ao motorista para nos deixar no hotel Pirâmides. A corrida, nós pagamos.

 

De volta ao Hotel Pirâmides

Chegamos ao hotel em torno de 1:00 da noite, em um táxi simples (o motorista dirigia como um louco). Quando, guardas armados com metralhadoras, não nos deixaram entrar no hotel. Ordenavam que o táxi voltasse e nos deixasse em outro local. Com muita paciência, explicamos que já estivemos hospedados naquele hotel. Pediram passaportes,  finalmente nos deixaram entrar. Quando pagamos ao motorista do táxi, não recebeu o combinado. Queria mais. Demos as costas ao motorista, que gritava, e entramos no hotel.

O atendente nos reconheceu e ficou surpreso por não estarmos em Israel. Explicamos o nosso infortúnio, rezando por uma cama e um banho. O atendente olhou nos livros e informou que não tinham vagas para nós. Informei que eu tinha cartão de crédito para pagar a conta. Finalmente, nos alojou em um apartamento vago. Com toda preocupação, tentamos dormir aquele resto de noite. Uma esperança: No dia seguinte entrar em contato com o Brasil para resolver nosso retorno ao Brasil. Todas as despesas agora estavam por nossa conta. Queríamos sair do País, mais rápido possível.

 

Contato com o Brasil

Egito-Brasil: Cada 3 minutos de telefonema, o hotel cobrava US$ 15,00. Por azar, era feriado no Brasil (Dia do trabalho), assim, nada conseguimos no outro dia.

No dia seguinte, feriado no Egito (dia da flor de Lótus) e não conseguimos evoluir nossos contatos. Quando conseguimos contato com a Empresa de turismo local (Cairo) tentamos transportar o valor pago no pacote de Israel (para estender o pacote turístico no Egito). A empresa informou que era impossível. Os Judeus já haviam recebido e não devolveriam o dinheiro. A orientação que nos deram foi: Adquirir passagens para Milão (US$ 3.000,00 duas passagens). De Milão deveríamos comprar novas passagens para o Brasil. Ou seja, perdemos tudo que foi pago.

No dia seguinte em contato com o Brasil a nossa empresa de turismo nos orientou para procurar a companhia aérea (Alitália) para tentar a troca da nossa passagem. Pagando táxis caros, fomos ao centro do Cairo (o Hotel fica distante do centro) depois de várias tentativas conseguimos um aval da companhia. Mas, o acordo só seria fechado na hora de embarcar. Foi marcado o embarque para 5 dias após.

 

Resolvendo com a Embaixada

Procuramos o Consulado brasileiro para resolver nossa situação e saber por que não fomos aceitos em Israel. O Secretário (egípcio) já achava motivo de declarar guerra contra Israel. Fomos atendidos pelo cônsul. Ele falou que procuraria saber o motivo da negação. Eu informei que estava ficando sem dinheiro. Caso o assunto demorasse, nós iríamos dormir no consulado. Depois, para distrair fomos passear pelo centro do Cairo. Quando atravessamos a rua, a marquise onde estivéramos em minutos atrás, desabou formando um monte de escombros e uma nuvem de poeira. Depois fomos abordados por um vendedor que, praticamente nos raptou para sua loja. Falando que nos conhecia, nos levou para a loja e só conseguimos sair quando compramos alguma coisa.

 

No aeroporto do Cairo

E assim os dias foram passando até o dia do embarque. Saímos do hotel à meia noite com destino ao aeroporto. Chegamos ao Aeroporto e fomos procurar a Alitália para confirmar a troca do local de embarque, conforme já acertado anteriormente. A agência estava fechada. A informação que a funcionária iria chegar às 3:00. O vôo sairia às 4:00. A chamada do vôo começou e a funcionária não chegou. Sem o visto não poderíamos embarcar.

Finalmente, após muito desespero, a funcionária abriu a loja. Apresentamos nossa passagem para confirmação. A chamada para o vôo já estava aberta há algum tempo. Finalmente a funcionaria liberou nossas passagens. Fomos para a entrada de embarque, lá havia uma confusão. Vários guardas vistoriavam as passagens de todos turistas.

Quando mostramos as passagens, os guardas ordenaram que nós voltássemos. Diziam:

“Vocês estão no aeroporto errado! Devem embarcar em Tel Aviv!”.

Tentávamos explicar, mas não davam atenção. Havia um grande movimento de pessoas. No limite do desespero, colocamos nossas malas na esteira, sem autorização. Forçando a entrada entre a multidão, passagens na mão. A Mara passou. Quando Eu passei, o soldado me reconheceu e me chamou. Haviam ainda alguns soldados à nossa frente. O soldado gritou alguma coisa para eles, enquanto Mara e eu passamos com pressa. Sem olhar para trás, chegamos à cabine da alfândega. Bem, pelos guardas, conseguimos passar.

Agora faltava fechar o check in. A atendente perguntou por que não foi cobrado um valor de diferença. Informei que não sabia, e pedi para apressar. Era a chamada final. A funcionária nos liberou. Respiramos mais aliviados. Agora só falta a vistoria do passaporte. Nosso medo era novos questionamentos a respeito do carimbo de cancelado na entrada em Israel. Não queríamos perder o vôo. Graças a Deus, inspecionaram o passaporte e nos liberaram. Logo estávamos embarcando para Milão. De lá , o tão esperado retorno para nosso querido Brasil.

 

Em São Paulo

Quando pisamos no solo brasileiro, agradecemos a Deus. No Aeroporto de São Paulo, convidei Mara para um café. Mara nunca tomou café, nem gostava de capuchino. Naquela felicidade, abriu uma exceção. Pedimos dois capuchinos. Mara bebeu e gostou. Daquele dia, até hoje, todos as manhãs a Mara toma capuchino.

 

Página Família Bernardo

 

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