Caminho da Luz – Coletiva 2006

 

Primeiro dia (17/07/2006)

Às três e meia da madrugada já havia gente se arrumando para caminhada. Com o barulho de sacolas não era possível dormir. Ficamos enrolando até as 5:00 quando fizemos nossa oração para levantar e arrumar nossas mochilas. Depois, fila para escovar os dentes, fila para ir ao banheiro e logo estávamos pronto para o caminho do dia. Um farto café da manhã foi servido na base da cachoeira de Tombos, onde também foram efetuadas as inscrições, pagamento, e distribuição das camisetas, cajados e livros. Depois a inauguração da capela com a benção do padre para os peregrinos.

Fizemos nosso alongamento e iniciamos a subida da trilha ao lado da cachoeira. Uma fila indiana na trilha que só permitia um por vez, iniciava a caminhada bem lenta até deixar a cachoeira para trás. A manhã embora fria, estava muito clara e iluminada com um céu de brigadeiro isento de nuvens. Cruzamos a cidade de Tombos e logo estávamos em uma estrada de chão indo com destino a Catuné, distante a 25 km, nosso objetivo do primeiro dia.

Logo passamos pelo mascote do caminho. João com apenas dois anos e já na sua segunda participação (com a ajuda do papai e da mamãe, é claro). Mais alguns kilometros e passamos por Simone que incrivelmente estava em silêncio (momento raro e digno de registro).

Os carros que eventualmente passavam deixavam uma espessa nuvem de poeira, fazendo nela desaparecer os peregrinos, que corajosamente permaneciam firmes sem perder o ritmo da caminhada. Neste trecho, atravessamos fazendas sendo observados de perto pelo gado que pastava. Muitas subidas e descidas por colinas cobertas de pastos verdejantes.

Foi quando conhecemos o Sr. Rafael (capixaba) que estava fazendo o caminho só, pois sua esposa estava trabalhando. Notamos que ele não tinha cantil e perguntamos como fazia para matar a sede. Ele nos confessou que estava com uma sede tremenda e todas as casas que encontrou pelo caminho estavam abandonadas. Explicamos que é muito perigoso sair para aquele caminho sem levar água. Naquele sol, há um forte perigo de desidratação. Peguei a caneca de alumínio e ofereci um pouco da minha água para amainar a sua sede. Ele tomou a água, agradeceu e fomos conversando pelo caminho. Contou-nos que começou a caminhar por recomendação médica, pois após um exame de rotina, um médico ao olhar sua radiografia lhe falou que estava com esclerose. Desconfiado foi a outro médico que estranhou aquele diagnóstico baseado apenas em uma radiografia. Pediu outros exames e afinal falou que ele estava com saúde perfeita, apenas com pouca resistência. Aconselhou caminhadas. Assim, nasce o andarilho Rafael.

Depois um trecho dentro de uma mata muito agradável pelas sombras generosas que davam um alívio ao sol causticante do dia. Neste trecho, o lanche do dia onde os peregrinos aproveitavam para descansar enquanto o alimento refazia suas forças. Felizmente este ano, no apoio havia água para vender, de forma que ficamos mais tranqüilos em relação ao Rafael. O pequeno peregrino João, já dormia sobre uma toalha no chão, refazendo as forças da caminhada da manhã. Mais do que ninguém, ele precisava disso.

Retomando o caminho, mais estradas de chão até um ponto onde se deixa a estrada e entra-se em um pasto com uma colina de difícil ascensão. Reduzimos o ritmo para a subida, mas de forma cadenciada e constante deixando alguns peregrinos para trás. Fomos ultrapassados pelos Silvios (pai e filho de Brasília) que havíamos conhecido na base da cachoeira, que subiram com muita disposição. Logo estávamos no alto da colina e tínhamos vencido o maior obstáculo do dia. Mais a frente ainda havia a subida da gruta santa, menos íngreme e menor, mas um peso para os peregrinos cansados pelo duro caminho do dia. Por volta das 13:00 estávamos chegando a Catuné.

Catuné é um minúsculo povoado cuja receptividade é inversamente proporcional ao seu tamanho. As pessoas recebem os peregrinos com alegria, calor e carinho, oferecendo aipim cozido, bolo, água e refrescos bem gelados. Embora não tenha hotel e não possuir água quente no banheiro da escola, as famílias abrem suas portas para os peregrinos tomarem banho. Para nós, a melhor recepção do caminho.

Eu e a Mara ficamos alojados na escola. No ano passado, procuramos ficar em pousadas para ter mais conforto, mas neste ano, decidimos por ficar nas escolas, pois entendemos que assim participamos mais. É onde está a maioria que as coisas acontecem. Além disso, nas noites de alojamento nas salas de aula ou nos ginásios, são momentos muito ricos de relacionamentos. Temos a oportunidade de compartilhar o local de dormir, trocar idéias e conhecer melhor outras pessoas. Também são nesses locais que aflora a solidariedade com troca de remédios, massagens, curativos, etc.

Escolhemos um canto entre algumas mesas e armamos nossos sacos de dormir. Na sala dormiram umas vinte pessoas. Dentre elas destacamos:

Henoc, Miguel e Lula – Trio de capixabas já conhecidos nossos de outras peregrinações.

Luciano – ficou ao lado do trio, mas falou que não conseguiu dormir em função do desempenho roncal do Henoc.

Os Silvios – Pai e filho de Brasília, o pai aposentado e o filho conseguiu uma folga para participar do caminho. Já havíamos conversado em Tombos e eles já fizeram o caminho da fé.

Felipe e Dênia – Casal que tivemos o prazer de ver sempre caminhando juntos. Dormiram apenas esta noite no coletivo, pois já haviam feito reservas nas pousadas para os outros dias.

Fernando e Valdir – Irmãos de Brasília que estavam com a família. O Valdir com esposa (Rejane) e filha (Carol). Tivemos o prazer de conhecê-los mais a fundo posteriormente.

Após o delicioso jantar comunitário oferecido pelos moradores de Catuné, houve uma apresentação da cultura local com a presença de muitos peregrinos. Eu e a Mara optamos por descansar e dormir em função do cansaço e do frio que fazia naquela noite.

 

Próximo dia                                     Dia anterior                                     inicio do relato                                Página Família Bernardo

 

 

 

Deixe sua mensagem